domingo, 28 de outubro de 2012

O inacreditável computador que levou o homem à Lua


 
Armstrong, Collins e Aldrin, a tripulação da Apollo 11
Da Terra à Lua com o poder de uma calculadora

A noite de 20 de Julho de 1969 ficará para sempre marcada na história da Humanidade como um dos maiores triunfos tecnológicos já realizados, quando os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram pela primeira vez na superfície lunar.


As insígnias do Programa Apollo (Esq.) e da Missão Apollo 11 (dir.)

Mesmo com a tecnologia atual, é difícil imaginar a complexidade de um projeto como este, realizado com total sucesso após o retorno de toda a tripulação em perfeitas condições. Se o governo americano decidisse enviar uma nova missão à Lua hoje, a NASA levaria alguns anos planejando a viagem.

Muitos dizem que o grande feito da Missão Apollo 11 não foi levar os homens à Lua, 
e sim trazê-los de volta vivos.

Isto faz pensar em como este projeto fantástico foi realizado com a tecnologia da época. É realmente incrível saber que o computador que levou a tripulação da Apollo 11 à Lua e a trouxe de volta intacta tinha memória inferior a uma calculadora científica atual.

Interface do AGC, alguns painéis e um teclado numérico 

O principal computador das espaçonaves do Programa Apollo era conhecido como AGC (Apollo Guidance Computer), e era ele o responsável por controlar todo o Sistema de Navegação, incluindo os cálculos de aproximação, aterrissagem e decolagem. Ele tinha 72K de memória, e uma capacidade de processamento centenas de vezes menor do que qualquer dispositivo digital em produção atualmente. Apesar disto, já era capaz de realizar 8 diferentes tarefas simultaneamente, efetuando complexos cálculos trigonométricos cuja execução manual tomaria um precioso tempo da missão.

Detalhe do módulo de interface do AGC instalado na Apollo 11

Sua interface era formada por um display de luzes, um painel de funções e um teclado numérico.

O sistema completo tinha 32Kg

Apesar de suas limitações, pesava nada menos que 32 Kg, peso este definido depois de grandes esforços de miniaturização e compactação, pois qualquer kg de peso faria diferença no consumo de combustível.

Detalhe de uma placa de "Core Rope Memory" (Memória de Cordas)

O mais curioso porém, era a memória que armazenava o software, formada pelo que se chamava de Core Rope Memory (Memória de Cordas). Este tipo de memória ROM (Read Only Memory) foi muito utilizada entre 1960 e 1975, e era formada por uma série de fios "tecidos" manualmente entre anéis metálicos magnetizados. Os fios que passavam por dentro dos anéis magnetizados eram computados como "1", e os que passavam fora dos mesmos anéis eram computados como "0", permitindo o armazenamento de códigos binários.

Veja abaixo um vídeo que mostra o processo de montagem destas memórias pelas "Senhoras da NASA".


O método de armazenamento dos programas era incrivelmente lento, e a correção de erros era tão complicada quanto desfazer um bordado, mas funcionava. Curiosamente, senhoras com experiência em costura eram as responsáveis por executar as intrincadas tramas das placas de memória do Projeto Apollo. Engenheiros da NASA costumavam chamar estas memórias de "LOL Memory", que significava "Little Old Lady Memory", referindo-se diretamente às senhoras que as fabricavam.

Rara foto de uma das senhoras que "teciam" as memórias do Programa Apollo


Porém, as "Core Rope Memories" não eram afetadas pelos raios cósmicos aos quais as espaçonaves são expostas durante as viagens espaciais, ao passo que as memórias atuais correm o risco de serem apagadas ou alteradas. 


 As Auroras Polares são causadas pelos raios cósmicos que atingem a Terra

Portanto, sempre que você reclamar da velocidade ou capacidade de seu computador, dizendo que com ele você não consegue trabalhar, lembre-se que alguns brilhantes cientistas levaram 3 homens à Lua e os trouxeram de volta com muito menos do que isto...


"Uma vida sem desafios não vale ser vivida"
Sócrates 


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domingo, 21 de outubro de 2012

Roberto Andraus, a curiosa história do empreendedor marcado por uma tragédia, que construiu uma cidade no litoral paulista


A noite do dia 24 de fevereiro de 1972 foi muito triste para todos os paulistanos, especialmente para o construtor Roberto Andraus. Depois de dar várias entrevistas, em uma cidade às escuras e com um onipresente odor de fumaça, tentava entender a extensão da tragédia que se abatera no Edifício que levava o nome de sua família, o Andraus.

 O Edifício Andraus durante o incêndio de 1972 e em foto mais recente
40 anos depois, várias repartições municipais e federais funcionam em suas dependências


Construído em 1962, foi consumido pelas chamas em poucas horas, mas graças à sua estrutura central de concreto e o Heliporto localizado na cobertura, muitas vidas puderam ser salvas pelos corajosos profissionais que arriscaram suas vidas para salvar centenas de pessoas.

Muitas pessoas foram salvas pelos bravos pilotos de helicópteros que arriscaram suas vidas
Na época, a frota de Helicópteros era de apenas 20 aeronaves, mas mesmo assim foi a maior operação de resgate aéreo protagonizada por pilotos civis da história

Porém, o construtor que teve o sobrenome marcado por uma das maiores tragédias que a cidade de São Paulo já presenciou, mereceria ter seu nome associado ao seu empreendimento mais arriscado e bem sucedido, que mudou para sempre o perfil do litoral sul do Estado de São Paulo: a CIDADE OCIAN

Foto aérea da Praia Grande na década de 50

Até o início da década de 50, o atual município de Praia Grande era apenas uma vila da desenvolvida cidade de São Vicente.

 Comparada à Praia Grande, São Vicente era uma cidade desenvolvida na década de 50 (Foto de 1955)

A partir do Boqueirão, tinha início uma  faixa contínua de areia que continuava a perder de vista, onde bois ainda ajudavam no arrasto das redes dos pescadores que buscavam seu sustento.

Bois ajudando a recolher redes de arrasto na Praia Grande, na década de 40

Desde 1914 a Ponte Pênsil atravessava o Canal do Mar Pequeno, facilitando o acesso terrestre à Praia Grande, mas curiosamente, o objetivo principal da Ponte não era simplificar o acesso de turistas, e sim transportar o esgoto coletado em São Vicente e Santos até a então longínqua Ponta de Itaipu, onde seria despejado no mar.

Ponte Pênsil, uma das mais emblemáticas obras de Engenharia brasileira do início do século XX

Conheça a interessante história da Ponte Pênsil no excelente Blog Novo Milênio

Com exceção do Boqueirão, onde havia algum movimento, apenas os mais aventureiros arriscavam-se com suas famílias em direção ao sul, por precárias estradas de terra ou pelas traiçoeiras areias da praia.

Foto do Hotel dos Alemães, ponto de encontro principal da Praia Grande durante as décadas de 20 e 30.

Restaurante Lagostas, em foto da década de 50. 
A sofisticação finalmente chegava à Praia Grande

Porém, jovem construtor Roberto Andraus foi o primeiro a perceber o potencial da região, e antecipando o desenvolvimento que fatalmente viria nos anos posteriores, idealizou a construção de uma cidade ao sul da vila de Praia Grande, numa área pantanosa conhecida como Sítio Ubatuba, que havia sido herdada desde a época anterior à Abolição da Escravatura.


A Praia Grande e seus grandes espaços durante a década de 50

Irrealizável e impossível eram apenas alguns dos adjetivos que seus críticos comumente usavam para descrever o projeto de Roberto, que contra tudo e todos cercou-se de bons profissionais para idealizar um moderno e organizado conjunto de 22 prédios, com completa infraestrutura.  

Foto aérea da Cidade Ocian, década de 50.
Vale observar os automóveis na faixa de areia

Da abreviação do nome de sua empresa, a Organização Construtora e Incorporadra Andraus Ltda, surgiu o sugestivo nome do empreendimento, CIDADE OCIAN.

Caixa d'Água da Cidade Ocian na época de sua inauguração
A água era captada nos rios que passavam pela região

Foi necessário 1 ano para que as lagoas onde se pescavam traíras fossem aterradas, e em 1954, tapumes à beira da praia anunciavam a venda de modernos apartamentos. Uma eficiente campanha de marketing despertou o interesse de uma multidão que dirigia-se como podia ao local para realizar o sonho de uma "casa de praia" com um nível de conforto só possível nas grandes cidades. Pela primeira vez uma campanha deste tipo era veiculada no rádio, revistas e jornais.

A linha de ônibus que ia de São Vicente até a Cidade Ocian, também na década de 50

Logo foi necessário expandir o precário serviço de ônibus que ia até o "Campo de Aviação", e uma linha regular foi instalada saindo de São Vicente a cada duas horas. O itinerário muitas vezes era alterado durante a maré alta, atrasando ainda mais a viagem. Era muito comum que os tratores de Andraus tivessem que interromper as atividades para resgatar motoristas atolados nas areias da praia, torcendo pelo salvamento antes que seus veículos fossem levados pela maré.

Foto da inauguração da Cidade Ocian, com Roberto Andraus e autoridades paulistas

Finalmente, em 27 de maio de 1956, era inaugurada com a presença de várias autoridades, a Cidade Ocian. Um churrasco foi servido para mais de 6.000 moradores dos 1.600 apartamentos, que eram inaugurados com água, esgoto, eletricidade, serviço de incineração de lixo, policiamento e comércio básico instalado.

A tranquilidade da Cidade Ocian em Cartão Postal do início da década de 60

Durante quase cinco anos, a Cidade Ocian foi considerada a mais moderna e arrojada cidade brasileira, título perdido apenas em 1960, com a inauguração de Brasília, a nova capital federal.

Helicóptero da Incorporadora Andraus chamando atenção na Cidade Ocians (década de 70)

O sucesso do Cidade Ocian, que na época era chamada de "Sereia do Atlântico" incentivou a especulação imobiliária em toda a Praia Grande, trazendo uma série de empreendimentos por toda a costa, desde o Boqueirão até Mongaguá, transformando para sempre o litoral sul paulista, para o bem e para o mal.


Os mesmos prédios da Cidade Ocian hoje
Google Maps

Hoje, os 22 edifícios originais da Cidade Ocian escondem-se na intrincada paisagem urbana da Praia Grande, mas 60 anos depois ainda permanecem por ali, observados por Netuno, testemunha muda de décadas dos altos e baixos desta região, presente na memória afetiva de uma grande parte dos paulistas.

 
Os prédios originais da Cidade Ocian continuam por lá...


Veja no Google Earth...
https://maps.google.com.br/maps/myplaces?ll=-24.028155,-46.474545&spn=0.003831,0.006968&ctz=120&t=e&z=18&ecpose=-24.03170542,-46.47147709,404.36,-38.282,52.145,0&lci=com.panoramio.all



A Estátua de Netuno continua observando a Cidade Ocian
em foto de 1956 (a esquerda) e em 2012 (à direita)


Saiba mais sobre a Cidade Ocian no excelente Blog Novo Milênio

e sobre a Praia Grande em...


Veja mais fotos antigas no Banco de Imagens da Prefeitura da Prais Grande



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domingo, 23 de setembro de 2012

A curiosa história do Bob's: o tenista que virou hamburguer




Bob Falkenburg em frente ao primeiro Bob's em Copacabana (1952)

Durante a grave crise econômica que se abateu sobre o Brasil na década de 80, ficou bem famosa em São Paulo a história do Engenheiro Odil Garcez Filho, que sem perspectivas profissionais em sua área de atuação, abriu uma lanchonete na Avenida Paulista chamada "O Engenheiro que virou suco", tornando-se um dos símbolos da recessão daquela que ficou conhecida como a "década perdida".

Falkenburg apaixonou-se pelo Rio de Janeiro e por uma carioca

Porém, a história de amor entre o tenista norte-americano Robert Falkenburg e o Rio de janeiro supera em muito a de Odil.

Robert Falkenburg em ação

Robert Falkenburg, ou "Bob", como era chamado pela família e amigos mais íntimos, nasceu em uma família de classe média alta na cidade de Nova Iorque em Janeiro de 1926, onde todos praticavam tênis amador. 

Nova Iorque na década de 20 já era uma metrópole com vários "arranha-céus"

Mas o Rio de Janeiro já era lindo há muito tempo...
(foto dos anos 20 - observe a pequena quantidade de luzes na cidade)

Filho do engenheiro Eugene Lincoln Falkenburg, em cujo currículo consta participação no projeto da "Hoover Dam" (Represa Hoover), que permitiu a geração de energia elétrica suficiente para as extravagâncias luminosas de Las Vegas, é óbvio que o pequeno Bob teve sua iniciação nas quadras precocemente.

O pai de Robert Falkenburg trabalhou no projeto da Represa Hoover (Hoover Dam),
Uma das "pérolas" da engenharia mundial

Sua irmã mais velha, Eugenia, foi uma modelo muito famosa que aventurou-se na carreira de atriz em Hollywood, com o nome de Jinx Falkenburg, onde ficou marcada por sua beleza e corpo atlético, moldado pelas muitas partidas de tênis.


Jinx Falkenburg, irmã mais velha de Bob, foi uma modelo e atriz de sucesso

Depois de uma carreira amadora vitoriosa, mesmo enquanto servia na Força Aérea, Bob teve o auge de sua carreira em 1948, ao ganhar o Torneio de "Simples" de Wimbledon, o mais importante e emblemático campeonato de tênis do mundo, exatamente um ano após de ter vencido nas duplas.

Robert Falkenburg em Winbledon (1948)

Mas mesmo com a possibilidade de fechar um contrato de cem mil dólares anuais (o que em 1948 era uma fortuna), ele não aceitou a proposta, pois um ano antes, em uma viagem ao Rio de Janeiro para disputa de um torneio, conhecera a mulher de sua vida, a jovem Lourdes Mayrink Veiga Machado, com quem casara-se.

O "Soft Ice Cream" trazido por Robert Falkenburg já existia nos EUA desde o final da década de 1930

Apaixonado, mudou-se para a cidade maravilhosa, e ao invés de dedicar-se exclusivamente ao tênis, resolveu abrir a Falkenburg  Sorvetes Ltda, uma sorveteria que serviria o "soft ice cream", até então desconhecido dos brasileiros. Com 10 mil dólares e duas máquinas de sorvete trazidas dos Estados Unidos, Robert logo percebeu que abrir um negócio no Rio de Janeiro seria um desafio tão grande quanto ganhar os mais famosos torneios internacionais. Com problemas burocráticos que incluíam a proibição de importação dos ingredientes para a fabricação dos sorvetes, Bob via seu sonho "derreter-se". 


Lojas do BoBs na década de 70


Porém, com a mesma perseverança que o fizera salvar três "match points" seguidos na final do Torneio de Wimbledon, Robert desenvolveu os ingredientes e coberturas localmente, e em 1952 abria em Copacabana o primeiro estabelecimento que servia "soft ice cream" no Brasil, inicialmente apenas no sabor Baunilha.


Foto atual do Bobs da Rua Domingos Ferreira em Copacabana
Hoje é servido nesta unidade o mesmo cardápio de 1952

O sucesso foi tal que cerca de um ano depois Robert abriria na Rua Domingos Ferreira em Copacabana a primeira lanchonete "fast food" da América do Sul. Com o nome de BoB's, e servindo Hambúrgueres, "Hot Dogs", "Milk-Shakes" e "Sundaes" com um toque do sabor brasileiro, também caiu rapidamente nas graças dos cariocas.

O desenvolvimento dos logos do Bobs ao longo das décadas

A expansão dos negócios com novas unidades do BoB's logo fizeram Robert Falkenburg perceber que sua decisão fora acertada, visto que propiciaram ganhos maiores do que seriam possíveis para os melhores tenistas das décadas de 50 e 60. 

Placa comemorativa no Bobs da Rua Domingos Ferreira


Apesar disto, Robert ainda encontrou tempo e disposição para disputar duas vezes a Copa Davis pelo Brasil, em 1954 e 1955.

Em 1974, Bob vendeu sua rede de 12 lanchonetes para a empresa Brazilian Fast Food Corporation (BFFC), que iniciou a expansão no modelo de franquias, contando hoje com quase 700 lojas em todo o Brasil e mais 4 países.

Bobs em Rio Branco, no Acre

Loja do Bob's em Luanda, Angola

Também no início da década de 70, Robert e sua esposa retornaram para a Califórnia, onde Bob dedicou-se a outra de suas paixões: o Golfe. Após disputar com bons resultados vários torneios nos Estados Unidos e Europa, tornou-se presidente do Clube de Golfe da cidade onde mora, e ainda dá longas caminhadas, apesar de seus 86 anos de idade.

Robert Falkenburg, ao centro

O talento de Robert Falkenburg no esporte foi reconhecido com sua indicação para o Hall da Fama do Tênis em 1974. Seu talento como empreendedor, entretanto, é comemorado diariamente pelos milhares de consumidores que se deliciam com os lanches e "milk-shakes" do Bob's, que apesar de ter sido fundada por um norte-americano, é sem dúvida a mais brasileira das redes de "fast food".



"As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam."
George Bernard Shaw




Saiba mais sobre Robert Falkenburg em...

E sobre a rede de Fast Food BOB's em...

Ficou curioso com a história do "Engenheiro que virou suco"? Veja mais neste excelente texto...



Nota: Este post não tem nenhum patrocínio ou cunho publicitário.

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