domingo, 19 de fevereiro de 2012

SS America: ascensão e queda do navio das mil faces.


 O SS America entre as ondas de Fuerteventura, nas ilhas Canárias


O SS America é considerado por muitos como o mais belo navio de bandeira americana que já cruzou os oceanos. Construído no final da década de 30 no Estado da Virginia, iniciou seus serviços em 1940. 


A imponente proa do SS America, durante sua construção

Foi um dos poucos navios da história naval mundial a ter seu design interior criado por uma mulher, o que fazia com que fosse extremamente confortável e com uma atmosfera única.


Interior do SS America
Luxo e sofisticação


Seu batismo foi feito pela então primeira-dama norte americana Eleanor Roosevelt.


Eleanor Roosevelt durante o batismo do SS America, em Agosto de 1939
(sua primeira viagem oficial aconteceria em 1940)

Enquanto os Estados Unidos ainda mantinham sua neutralidade nos primeiros anos da Segunda Guerra, o SS America teve duas enormes bandeiras americanas pintadas em seu casco, e continuou fazendo suas rotas normalmente, apesar da crescente preocupação com as minas que flutuavam nas águas do Mar do Norte. Para servir às mais de 1000 cabines do navio, contava com uma tripulação de 643 pessoas.



O SS America com as bandeiras pintadas em seu casco, indicando neutralidade

No início de 1941, quando foi desmascarada a maior rede de espionagem alemã infiltrada em território americano, conhecida como "Duquesne Spy Ring",  as investigações apontaram que dois espiões eram tripulantes do SS America. Franz Joseph Stigler e Erwin Wilheim Siegler passavam ao Terceiro Reich informações sobre o movimento das tropas e preparação das defesas no Canal do Panamá. Ambos foram condenados respectivamente a 16 e 10 anos de prisão pelo crime de espionagem.


Os 33 espiões alemães membros do "Duquesne Spy Ring"
Os dois tripulantes do SS America estão na lista


Necessitando de embarcações para realizar transporte de tropas, e preocupada com as vulnerabilidades descobertas pelo "Duquesne Spy Ring", a Marinha interrompeu em Junho de 1941 a história de sofisticação e glamour do SS America, que foi rebatizado como USS West Point, e passou a fazer transporte de tropas. Para isto, foram instaladas baterias anti-aéreas em seu convés, além de algumas outras alterações de projeto, que incluíam uma nova pintura.


O SS America durante a Segunda Guerra Mundial foi rebatizado de USS West Point
Um desempenho notável no transporte de tropas

Seus ecléticos roteiros de viagem neste período incluíram Inglaterra, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Egito, África do Sul e até o Brasil 


Uma rara foto do USS West Point em uma das "Magic Carpet Voyages" em 1945
A chegada em Nova Iorque era acompanhada por todos no convés

Durante os 05 anos em que esteve a serviço dos militares, o navio transportou mais de 350.000 pessoas, tornando-se a embarcação que mais levou tropas durante toda a Segunda Guerra Mundial. Além de soldados, o então USS West Point transportou também voluntários da Cruz Vermelha, oficiais, crianças, civis, prisioneiros de guerra e artistas para entreter as tropas no front. Ao final do conflito, participou das alegres viagens de retorno das tropas que lutaram na Europa, conhecidas como "Magic Carpet Voyages" ("Viagens no Tapete Mágico").


O SS America saindo do porto de Nova Iorque para mais uma viagem

Depois da Guerra, o navio, agora novamente chamado de SS America continuou suas viagens de transporte de passageiros, com a mesma pompa anterior. No início da década de 50 outros navios americanos e ingleses de maior calado ofuscaram um pouco o brilho do passado, mas a segurança e conforto de suas viagens ainda tinham inúmeros fãs. 


Uma outra face: O SS America agora como Australis

Entre 1964 e 1980 o SS America foi comprado por outras empresas, e rebatizado de Australis, a seguir novamente como SS America e depois como Italis (quando uma das grandes chaminés foi retirada, descaracterizando o navio), em alguns períodos com o merecido respeito de seus proprietários e em outros não.


O SS America no período em que foi conhecido como Italis
Sem uma das chaminés e com uma pintura diferente, ficou irreconhecível

A década de 80 não foi nada boa para o SS America...Foi vendido para funcionar como prisão flutuante em Beirute, e algum tempo como "ferro-velho. A falta de pagamentos deste último comprador fez com que o navio não fosse desmontado, permanecendo sob custódia em uma doca seca. Em 1993, finalmente sua sorte parecia mudar: afastou-se a ideia do ferro-velho, e o SS America, rebatizado então de American Star, foi vendido para funcionar como um Hotel de Luxo flutuante na Ilha de Phuket na Tailândia. Apesar de anos sem uso e da retirada de seus motores, seu casco permanecia em excelentes condições, e o navio poderia ser rebocado até seu destino. Foi então que o navio ucraniano Neftegaz 67 começou um reboque de quase 100 dias entre a Grécia e a Tailândia.


Neftegaz-67: o rebocador ucraniano que deveria levar o SS America até a Tailândia em 1994
Pegos por uma tempestade, os cabos se romperam

Durante esta última viagem, o American Star e o Neftegaz 67 enfrentaram uma grande tempestade em pleno Atlântico, que acabou por romper os cabos de reboque. 6 tripulantes ucranianos foram a bordo do American Star tentar reconectar os cabos, mas depois de alguns dias foram resgatados por um helicóptero sem nada conseguir. A única decisão possível foi deixar o American Star à deriva até que afundasse ou encontrasse um banco de areia onde passaria o resto de seus dias.


Fotos do SS America (American Star) em Fuerteventura

O que não se esperava, entretanto, foi de que a última morada do antigo SS America fosse uma bela praia na costa da ilha de Fuerteventura, nas Canárias, onde encalhou em Janeiro de 1994.


   Foto tirada em 1994,
logo depois que o SS America (American Star) ficou preso na ilha de Fuerteventura.

Durante quase 15 anos dominou a paisagem, até que a força das ondas e marés o afundasse em 2008. Porém, o tempo em que o mais belo dos navios abandonados do mundo permaneceu acima da linha da água foi suficiente para que muitos exploradores e turistas prestassem sua última homenagem ao SS America, que assistiu de camarote a muitos dos mais importantes fatos históricos do século XX.



A força das águas aos poucos foi afundando o SS America, num processo que durou mais de uma década
Hoje apenas poucos metros do casco são visíveis


 Um "explorador" moderno dentro de um dos salões do SS America, no início da década
Hoje, tudo está debaixo da água

O isolamento do lugar que o SS America caprichosamente escolheu para repousar...

Veja mais fotos dos destroços do SS America em...

Garanto que muitos soldados americanos que retornaram para seus lares a bordo do USS West Point nunca esqueceram os detalhes deste fantástico navio que hoje repousa na Praia de Fuerteventura, nas ilhas Canárias.



e também sobre as aventuras de quem o visitou depois de seu abandono...


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14 comentários:

  1. Hoje ainda deve estar prestando bons serviços, servindo como abrigo de recifes, assim como outros navios afundados.

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  2. Deveria ter virado museu em terra firme pois tem muita história nele,além disso tudo a humanidade devia isso a ele agora já se foi.............

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  3. parabens otimo post excelente conteudo e bem montadinho, parabens denovo

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  4. Excelente post. Sou marítimo e gosto muito de curiosidades sobre navegadores e navios, e não conhecia a historia do do SS America.

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  5. Meus parabens pelo post cara , virei fã.

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  6. Nossa que matéria bacana.. *---*

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  7. Saldade do Layout antigo do Ocioso, então venha revelo AQUI ;)

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  8. Assim se faz um bom post,bem ilustrado e informativo

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  9. Ninguem hoje em dia da a maior importancia a história, no caso do SS America está um exemplo de abandono...

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  10. Que reportagem maravilhosa!!!!! Muito obrigada por essa leitura extremamente prazerosa que eu tive agora!

    http://tecnologia.br.msn.com/fotos/30-navios-naufragados-lindamente-assustadores#image=1
    Conte mais sobre aluns desses por favor. Abraços

    Carolina Beatriz - incarpediem@hotmail.com

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  11. cara muito legal !!! curti um monte esta sua reportagem !!

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  12. Simplesmente divino. A matéria, as imagens e a história. É lamentável que um patrimônio rico em detalhes da arquitetura daquela época e da vivência de fatos como a do SS América, vá toda por água abaixo. A ganância humana (com raras exceções) é de impressionar. Aposto que muitos ficaram ricos com ele e o abandonaram a própria sorte.

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  13. Parabéns pelo post!!!

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